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Crónica de uma separação anunciada!

02/01/13



"Apaixonaram-se em Setembro, numa daquelas saídas dele até à província. Ele já tinha reparado nela em tempos, mas não ousou. Ela era jovem, atraente, mas assustadoramente...inatingível, pensava. Não era vida para si, rematava. 
Desta vez, ela assumiu-se-lhe amadurecida, esbelta, como sempre, aliás. Mas agora duplamente atraente. Talvez por o ter olhado de frente, com um sorriso matreiro, mal escondido. 
Decidiu-se namoriscá-la, mesmo considerando a diferença de idades. Mas, aquele piscar de olhos... transmitiu-lhe confiança e ele arriscou. Sabia já na altura que seria mais certo a impossibilidade do sucesso, que a sua possibilidade. Uma paixão extemporânea poderia dar mau resultado. Ainda assim, assumiu o risco e avançou. Aperaltou-se. Limpou o guarda-fato, deitou fora a roupa velha, adquiriu outra mais nova. Não olhou a despesas, estava decidido a arrebatá-la com toda a pujança que ainda lhe restava. Acreditava que apesar do avanço no tempo, ainda tinha muito dele e capacidade para controlar o fogo que acabava de atear, mas desejava que nada interferisse nesta sua empresa. Procurou ser selectivo, quis livrar-se das más companhias que com ele privavam à mesa. Acreditava que estas não seriam desejáveis, nem cabiam no seu plano de conquista. Algumas conseguiu, outras nem tanto. Nunca saberá se fez alguma diferença. Sabe, isso sim, que deu de si o melhor que tinha para dar. 
Viajou com ela para muitos lados. O tempo mais o "tempo" não lhe permitiu encontrar-se com ela em mais outros tantos lugares, mas foi feliz. Tão feliz que lhe prometeu mundos e fundos, filhos até. Jurou-lhe fidelidade eterna, mas o fervor das suas emoções  fê-lo esquecer-se de que a idade poderia traí-lo. A nua e crua verdade foi-se-lhe assumindo, como um espectro, toldando-lhe o destino que ele recusava aceitar. Ele resistiu, lutou, foi paciente, tolerante, aceitou afastar-se para a ela voltar, renovado, rejuvenescido, pronto a amá-la. Da última vez amaram-se perdidamente e ela, talvez adivinhando que não o voltaria a ter assim, ofereceu-lhe o que de melhor tinha de si, brindando-o com todo o seu esplendor. E ele rejubilou de prazer e alegria. Confiou que dali em diante iriam ser felizes para sempre. Não mais se reencontraram.
Hoje, ele olha para trás, com um sorriso esculpido na sua  memória, na memória de quem foi feliz, de quem agradece todos os momentos que ela lhe proporcionou. Sem mágoa, sem arrependimento. Não há lugar para a tristeza, apenas para a comemoração do que a vida tem de mais belo.
Amanhã, ela continuará, jovial e bela como sempre. Ele talvez a reencontre, mas sem esperança."

2 comentários:

sica disse...

oh lecas, não conhecia esta vertente da escrita, gostei muito. Força João achei que estava muito bem escrito e gostei muito de ler.

david caldeirao disse...

o homem anda inspirado..., quem não treina tem sempre mais "tempo" para fazer outras coisas!!!
vai treinar malandro, pois não há nada melhor do que um amor "proibido" ;)
abraço