As emoções ainda fervilham de tal maneira na minha cabeça que verdadeiramente estou como numa descida de BTT, por onde hei-de ir? É o problema de alguém que vive estas coisas nos limites do emocional. Não há mesmo volta a dar-lhe. Nasce-se assim e assim se há-de cinzelar no fim. Também, se não fosse por paixão nada disto faria para mim sentido.
O dia amanheceu solarengo, como uma temperatura de fazer inveja: 23º às oito horas da manhã, em...Copacabana! Em Esposende a cena era bem diferente: não própriamente frio, mas nunca participei numa edição do Luso Galaico onde não imperasse o sol e o bom tempo e por isso sempre iniciei este extraordinário evento de BTT de calção e manga curta. Não! Este ano as coisas eram bem diferentes, mas em todos os aspectos: um extreme de dois dias, com pernoita em Caminha; um acumulado total de quase 5000 metros!! e a condição de se escolher entre as 6h30' e as 8h da manhã para partir para a aventura. Estas estavam programadas para serem dadas de 15' em 15', dentro daquele espectro horário. E eu, na pastelaria, para o pequeno almoço normal, ia observando a azáfama do pessoal que se ia aconchegando na grelha de saída.
A presença do Sr. Vereador, Dr. Rui Pereira, era o testemunho vivo do alto valor que o Município de Esposende empresta a este evento, um verdadeiro cartaz do Concelho, a todos os níveis.
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Momento da partida, na companhia do fantástico João PAulo |
Eu tinha o GPS, que o amigo Hugo ( Propedal), a exemplo do ano passado, me emprestou, mas gostaria de sair com uma cara conhecida. Afinal, a ideia não era propriamente competir, mas partilhar a aventura. E encontrei na pessoa desse jovem exemplo de pessoa, que é o João Paulo, advogado, praticante de taekwondo, que ainda tem tempo para participar num grupo de teatro, mas acima de tudo um "gajo à maneira", o melhor companheiro que poderia ter encontrado para esta aventura.
Mal demos por ela, estávamos prontos para o que aí vinha. É precisamente neste momento, às 8 da manhã, última oportunidade para iniciar a contenda, que a chuva aperta. A boa disposição, como sempre, imperava, e debaixo dos votos de boa sorte, lá fomos, a liderar o grupo nas primeiras centenas de metros. Sim, porque passado pouco tempo começámos a ver alguns galifões a distanciarem-se, distanciarem-se ...e pronto. Havia que meter o nosso "passo" e mais nada. Cedo comecei a verificar que algo se passava com o meu GPS. A trepidação desligava-o tão constantemente quanto eu o procurava ligar, num combate surdo de teimosia. E ainda cedo comecei a pensar que Deus me terá guiado para aquela hora de partida, mas principalmente para a companhia do João Paulo; é que este ano não iria ser a brincadeira do ano passado, onde falharam as pilhas do GPS num extreme de um dia. Confirmo agora a ideia de que não me teria sido possível concretizar este evento, pelo menos no tempo em que o fiz, se não fosse a parceria com o amigo de viagem. Adiante. Depois de passar terreolas e caminhos de cabras e de andar meio aos esses por aqui e por ali, dei comigo na escalada da Paradela! Primeira grande dificuldade do dia. Com chuva, pois então. Também cedo me apercebi que a cadência da pedalada entre nós os dois era semelhante. Começamos a apanhar alguns elementos que haviam partido mais cedo, mas também outros que haviam partido connosco se iam distanciando paulatinamente de nós.
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Exemplo de uma das vistas soberbas de um dos montes cruzados |
Após uma subida há sempre uma descida. O problema, para quem como eu que desconhece por completo os trilhos por onde há-de passar, é que nunca se sabe que raio de descida iremos encontrar; se para partir pedra, se para saltar socalcos seguidos de socalcos, seguidos de socalcos, se vamos voar...enfim. Não se sabe. Nem me passou pela cachimónia que tendo em conta o estado do tempo de sábado e da chuva que tem caído no corrente mês, que o natural era haver lama. Ora, quando olho para aquela parede que tinha de descer e iniciando a sua descida sem decisão e estando ainda a pensar se desço ou não, dou por mim como se estivesse literalmente num daqueles aquaparks, a descer uma rampa, só que aqui de lama e com socalcos e saltos e o catano, onde em vez de se seguir exclusivamente numa pista se entrecruzam várias outras, não tendo qualquer possibilidade sequer de decidir qual a melhor, muito menos parar...dou comigo a pensar nos dentinhos novos que havia posto há tão pouco tempo e rezo, rezo muito para que Tenhas piedade de mim...Só não fechei os olhos porque não dava. Fiz algo importante; coloquei o centro de gravidade do meu corpo todo para trás do selim e isso, mais as rezas, valeram-me não só descer uma descida que não voltaria a descer, nem que me pagassem, mas também não ter passado os 2 metros de trilho que separavam a encosta donde vinha da outra que se lhe seguia. Ufa! O João Paulo ria à gargalhada. Diz ele que foi lindo! Eu sei que tive um tempo na minha vida em que só pensei em sobreviver!!!
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Ponte de Lima, abastecimento |
Refeitas as emoções, lá fomos, a caminho de Ponte de Lima, após 50 kms do início, para o primeiro e único abastecimento do dia. Perdemos algum tempo aí, mas o espírito era mesmo este. Porém, ter-se-a iniciado um pouco antes de Ponte de Lima uma espécie de competição entre nós dois e um outro companheiro de aventura, bem nosso conhecido, que havia saído 30' antes de nós, e a quem passámos a designar por "Special One", "apenas" porque tinha o número um dos inscritos para esta contenda. Avancemos.
O regresso à "estrada" fez-se a custo e depois dumas valentes escorregadelas de bicla que gerou gargalhadas despregadas do João Paulo, fomos-nos aproximando de uma sequência de algumas valentes paredes onde as gentes se iam encostando para recuperar o fôlego. Às tantas, faltava uma, feita a penantes porque já não havia coração para mais, ficamos sós... Não! Espera! Vem lá o Special One!! Fizemos ali os dois uma promessa, mas vão ter de esperar pelo desfecho.
Alguns enganos no GPS foi-nos fazendo perder tempo. Assim como as fotos ou as paragens para apreciar as muitas belezas que a natureza ia oferecendo. Mesmo considerando que desejávamos concluir a empreitada em 8 horas, mais coisa, menos coisa. Nesta fase, o João Paulo atravessava algumas dificuldades nas paredes, mas uma altura houve em que tive de parar para alimentar o corpo. Isso custou-nos mais algum tempo e outros companheiros alcançaram-nos. Já rondávamos Caminha, mas olhando para o perfil da etapa ainda teríamos de massacrar o corpo em algumas empenas. Antes, meu Deus! descidas do arco da velha. Umas afoitei-me, outras quando parei para pensar já era tarde e não dava para tentar. Agora sim, cheirava a Caminha e as 8 horas já distantes e as últimas escaladas do dia. Eu só ouvia o João Paulo lá atrás... &%()//&&%%$?"#...vale a pena traduzir?
Finalmente a ponte que cruza o rio Coura e nos liga a bela Caminha. Chegados ao posto de controlo, a festa da chegada e a primeira pergunta: o Special One chegou a que horas? 18' mais cedo, resposta. E alguém de respeitosa idade diz que me conhece: "Você é famoso!" Viro-me para o João Paulo; "Estão a falar contigo!" "Não, não. É mesmo consigo! Até ganha medalhas no triatlo". " Eu? Bom, ganhei uma vez, em Aveiro. É verdade" " E até tem um blogue". "É verdade que sim, TriatloMania". Pois é...uma fã em Caminha, quem diria? Cumprimentamos-nos, desejamos-nos mutuamente votos de bom fim de semana. Agradeço a simpatia e realmente este mundo por vezes encolhe-se sobre nós.
O final do dia esteve impecável ao nível da organização, apenas com um senão. Falarei disso no balanço final sobre a organização. Depois de um banho morno, a acidez láctica começou a tomar conta das minhas pernas. Nesta fase já pensava como iria recomeçar o dia de amanhã. Tinha pela frente uma noite para recuperar e que poderia eu fazer para me ajudar a melhorar este estado todo empenado em que me encontrava? Primeiro; auto massagem, com um cremezinho para passar após esforços musculares intensos. Segundo; estiramentos antes de me afundar em cima dos colchões de ginástica que serviram de cama. Terceiro; elevação das pernas durante 30', aproveitando um banco sueco que serviu de mesinha de cabeceira. O jantar, esse tinha sido sorvido na companhia de alguns vizinhos comparsas de jornada. E após a partilha do saudável e alegre convívio, eu pedi desculpa e retirei-me para a camarata em que se tornou o pavilhão da escola secundária de Caminha passar a noite a procurar dormir, sem o conseguir. Ops!? Que é aquilo??? Alguém trouxe uma tenda para o pavilhão.
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Uma fonte na montanha |
Continua...