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Reflexão I

19/09/10



Hoje, enquanto pedalava, já bem próximo de casa, ao passar por um duo que me parecia ser pai e filho, reparei que o "velhinho" puxava pelo "novinho" e quando os cumprimentei, o primeiro correspondeu com um "bom dia" sonante e folgado, enquanto o segundo estrangulava o avançado da sua bicla e desesperado pedalava a custo. E surgiu-me esta ideia de escrever sobre os factores psicológicos condicionantes da prática de esforços de longa duração, vulgo, resistência ou antigamente denominados de endurance. 
Uma imagem que me veio logo à cabeça foi a dificuldade que os miúdos têm em superar distâncias que exijam gestão do esforço, perseverança, tenacidade e, por conseguinte, disciplina. Gostam mais da explosão, da potência, que acabe depressa, que a fadiga não se instale durante a fase de desgaste. Por isso, apreciam mais as corridas de velocidade (40 e 50 m), as estafetas, desde que não se estendam por percursos maiores. Claro que a fadiga também se instala nas provas de velocidade, mas preferem recuperar sentados. Gostam até de se rebolar no chão para disfarçar melhor as dificuldades sentidas nesse momento.
É por isso que também nas provas de triatlo longo assistimos a uma bem maior preponderância das idades mais avançadas (seniores, veteranos), e menos juniores, sub23. 
Para a concretização de um projecto de esforço longo são necessárias algumas qualidades específicas: determinação, disciplina, auto-controlo/paciência, planeamento, perseverança/tenacidade, dedicação. Destas, muitas têm a ver com as competências volitivas da pessoa. Não é por acaso que em muitas provas de atletismo onde tenho participado há uma grande adesão de veteranos, em detrimento dos juniores, seniores. Parece que a pirâmide de desenvolvimento do praticante está invertida. Na segunda edição do triatlo SS da Póvoa, e em masculinos, também pude constatar que o escalão V2 só foi superado pelo homólogo dos seniores.
É óbvio que as necessidades e os interesses das gentes mais novas são diferentes das gentes menos novas. Mas, haverá aqui uma forte influência dos hábitos de vida actual nas escolhas que cada um faz para a sua vida? Hoje as pessoas querem resultados JÁ! resolver, não interessa se bem ou mal, os problemas no imediato, de preferência que eles nem apareçam. Eu acredito que sim. "No meu tempo" os dias eram passados na rua, a jogar à bola ou a brincar nos montes, a fazer imensos disparates. No meu trabalho, com os miúdos que todos os anos me chegam às mãos, sei que grande parte daquele tempo que eu passava na rua, eles passam-no em frente a um computador ou da tv, longe dos jogos de rua, longe dos jogos de resistência, longe daquela fadiga que se instalava no corpo sem darmos por ela, a não ser quando à noite adormecíamos sem darmos conta em frente daquela desinteressante tv, meio preta, meio branca.
E quando como hoje observo um rapaz novo que num dos seus esporádicos passeios dominicais (imagino eu) se esgadanha todo para se manter vivo em cima da sua bicicleta, em contraste com a postura do seu pai, penso que aquele aparelho irá ficar mais um longo período sem ser montado, até que a memória do jovem apague a recordação deixada pelo dia de hoje. E é pena, porque não tem de ser assim.

Continuação de um Bom Domingo, companheiros.

1 comentário:

Pedro Brandao disse...

Camarada João. É sempre muito bom ler os teus comentários. Escreveres de uma maneira que intusiasma e de um modo cativante para quem lê. Muitos parabens por isso. Realtivamente ao conteudo daquilo que descreveste no ultimo post, concordo plenamente. É realmente o "querer já" que domina a maioria das mentes dos nossos jivens desportistas. Essa maturidade e resistência e presistência e planear e etc.... vem com a idade. e que bnom que é ser atleta de resistência. Pelo menos falo por mim. Dá-me muito mais gozo....