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Maratona do Porto: Corporis vs Mens!

07/11/10




Vou ter de começar por um dos lados desta espécie de políedro, tal é o embrulhado de emoções que me assalta a mente. As expectativas estavam definidas e o resultado final não saiu nem um milímetro afastado daquele que poderia ser, acreditava eu que iria ser, o meu resultado final. Isto é, durante toda a minha súbita (porque de impulso, como se menino me tivessem desafiado para a contenda, "o quê? não consegues isto?") preparação, os resultados dos sucessivos testes aos quais me subordinei deram sempre o resultado que hoje se verificou: 5' mais qualquer coisa por quilómetro. Sem tirar nem pôr. O resultado final que o meu "novíssimo" amigo Pedro Pinheiro aqui anunciou em primeira mão (3:36:18, parte ilíquida, segundo a organização; 3:35:34, tempo líquido) atesta com exactidão e ao modo suíço aquilo para o qual estava/estou preparado no momento, e que aqui até fui dando conta ao longo destas 4/5 semanas em que me resolvi atirar à degola do "monstro". E venci! Não sem sofrimento. Já o esperava, porque esse também foi treinado. Mas, o sofrimento de que falo teve duas dimensões: a que me referia em primeiro lugar tinha a ver com o metatarso ou fáscia ou o inverso. O segundo tinha a ver com o esforço em si, com o desgaste provocado por um evento deste cariz. Mas, já lá irei (é que está dar-me gozo escrever sobre esta coisa. Peço-vos apenas paciência).

A Maratona antes de o ser
Contrariando todas as previsões à distância de um clique, choveu! Também eu fiquei espantado quando, pela manhã e antes de sair de casa, me deparei com aquela chuva "molha parvos". Hoje entendi o seu verdadeiro significado. Chegados (sim, levei a minha cara metade) ao local de partida, tive o prazer de finalmente conhecer o Mark Velhote, um rapaz novo, simpatiquíssimo, cheio de energia, competente no acto de correr, como prova o seu magnifico tempo. E quando se junta gente de bem, logo aparece mais uns quantos do género; foram os casos do Rui Pena, uma delícia de companheiro, do Paulo Sequeira e do Joel Marcelino (que prova que fez este homem. Atrevo-me mesmo a dizer que é um fenómeno descoberto aos 40 e tal anos), outros companheiros de excepção, e mais uns quantos que me foram apresentados mas que, sinceramente, apenas registei o nome do Veloso. E faltava um grande camarada neste pequena tertúlia: Pedro Brandão, que no dia anterior me tinha dado o prazer da sua companhia à mesa e em tudo o mais que rodeou o levantamento do meu kit. Mais tarde fiquei a saber que o homem "quis" partir à frente. Por isso...E falando no sábado, também foi agradável conhecer a "Maria Sem Frio Nem Casa", mais o acompanhamento familiar. Uma outra enormíssima e agradabilíssima surpresa foi ter reencontrado o João Paulo Ferreira. Que maravilha! Adorei trocar aquelas palavras contigo, João e, claro, encheste-me o ego. Não mereço tanto, mas que soube bem, soube. Temos de "arranjar" qualquer coisa neste defeso, amigo. E ainda o Henrique, cujo grau de altruísmo é de salientar, uma vez que o amigo estava ali para ajudar os aflitos nos últimos 20 kms. Não é para todos.
No momento da partida dá-me uma vontadinha de libertar uns líquidos. Olho para os vários lados. Penso mesmo fazer ali. Parece e era muito mal. Decido não pensar muito no assunto. "Pode ser que passe". E passou.

Partida e...
Logo de imediato, vi "soltarem-se" os companheiros de momento: o Rui e o Sica!. Deixá-los ir, pensei. A estratégia estava montada: correr como se de um treino se tratasse. Pensei ao longo do percurso no companheiro dos algarves, David Caldeirão, e das suas sábias palavras: gestão. Assim foi. Passaram-me montes de "gajos" e "gajas" cheios de genica e com forte ritmo. Nã! Essa não é a minha corrida. Na primeira rotunda revejo o Rui Pena. Iria acontecer mais vezes. Ia bem, o amigo, e após a passagem daquela, mais umas palavras amigas, agora do João Paulo. E lá fui andando, no meu confortável ritmo. Deveria estar a correr na ordem dos 5'/km, com uma pulsação a rondar os 140 bpm, mas com tendência para baixo. Era o que desejava, pelo menos até sensivelmente os 25 kms. A dada altura encontro um sólido grupo. Ainda andei um bom bocado com eles. A boa disposição imperava, mas o meu ritmo estava a ser um nadinha mais rápido. Chega o túnel, ou chego-me a ele, e temo o pior. Aquela calçada triturou-me a cabeça quando lá passei na meia. Passei bem. Já a fáscia fazia questão de me dizer que também ia fazer a prova comigo. Eu sabia-o, ela sabia-o. A dúvida era saber quem enganava quem. Em Gaia ouço palavras de estímulo do Henrique, que em ambos os sentidos do trajecto fez questão de me incentivar. Nesta fase ainda conseguia responder. À passagem do primeiro controlo ía com quase duas horas de prova. O ritmo tinha aumentado, de forma ténue, mas tinha. A pulsação estava a pisar para além dos 140 bpm, mas não muito. Estava a gerir bem as armas. A dor incomodava, mas procurava afastá-la das minhas preocupações. No retorno dos 28 kms começa a apoderar-se alguma fadiga para gerir, que se notava mais ao nível das articulações. Pareciam que se estavam a soldar. Era o fim do modus confortabilis. Nova passagem pelo túnel e nova procura do melhor trajecto. Concluo que correndo na faixa da divisão do tráfego pode ser que seja mais macio. Olha, passou-se. E agora era enfrentar as longas rectas, mas sem as olhar muito de frente. Nesta fase fui passando muita gente. Alguns iam sentindo muitas dificuldades. Ora paravam, ora caminhavam. Mas, continuavam comigo alguns que já vinham há muito, ora passando-me, ora passando-os eu, conforme a disposição do momento. Duma coisa eu sabia e nisso confortava a minha mente; já tinha vencido a distância dos 35 kms. Encontrava-me precisamente nessa fase. Pensei que após os 37 kms talvez pudesse ir um pouco mais além. As articulações olham-se e nem me respondem. A planta do pé estava controlada, não sem dor. Acho que tinha desistido e resolveu ajudar-me, anestesiando-se. E alcanço os tais 37 kms. Aí resolvo soltar um pouco mais a passada, procurando a técnica e repousando entre os apoios apesar do momento difícil que passo. Noto que vou passando muito mais gente. Congratulo-me com a decisão que tomei relativamente ao ritmo. Foi impressionante ver as dificuldades das pessoas nestes últimos quilómetros. Até parece que os pés tropeçam na própria deslocação do ar que o seu corpo provoca. Já estou novamente na rotunda e revejo o Rui Pena, em dificuldades, do outro lado. Não é possível alcançá-lo, mas vou melhor, nesta fase. Definitivamente, sou um "gajo" de resistência. Já vislumbro ao fundo os pórticos, uns da chegada, outros da passagem aos 5kms. E aqui é de enaltecer as muitas, imensas palavras de estímulo das pessoas nesta fase final, incentivando sempre! Fez-me recordar a chegada à meta na final do Ironman do Campeonato do Mundo em Kona, Hawai. Senti-me de ego cheio. Nestas centenas de metros finais, que parece nunca mais acabam, tenho uma decisão a tomar; há um indivíduo de um escalão acima do meu que me antecede. Penso em fazer um forcing final. Ele já estava a fazê-lo, sem saber se eu estava ali ou não. Decido que não é em 100 metros finais que retiro o prazer dele cruzar a meta primeiro que eu. Ao passar o relógio da chegada, tiro o boné e curvo-me perante...a distância, Filipides, o grego, perante o meu registo, perante todos os que me antecederam e os que se atreveram a vencer a distância, mas também foi um gesto de agradecimento por todos aqueles que gritaram o meu nome ajudando-me a chegar mais à frente a concluir esta empreitada. Corro logo a desatar os atacadores. O ambiente era de um esfuziante surdo, porque vergado à força do cansaço - não se notavam as gargalhadas. Antes ainda de abandonar o local de chegada recebo a minha maior prenda de todas: palmas, muitas, um beijo de uma alegria contagiante e um sorriso de orelha a orelha, mais as palavras que nos alimentam a estima, confiança e tudo o mais. A minha mulher estava exultante. Mais que eu, acreditem, pelas razões que atrás referi. Foi uma surpresa enorme.

Nem tudo correu bem.
Já sabem que eu sou um bocado minhoquinhas com estas coisas da organização, mas acho que devo, sem ter a pretensão, de alertar consciências ou pelo menos dizer de minha justiça. Não sou perfeito, longe disso. Também sou alvo de muitos reparos. Aceito-os quando devidamente justificados. Não tenho problema algum. E sou assim também com os outros. 
A prova no geral esteve muito bem organizada. O percurso não sendo difícil, acho que também não será dos mais fáceis. Mas, não houve grandes falhas. Houve, isso sim, algumas promessas incumpridas ao nível da suplementação. No dia anterior, olhei bem para o mapa do percurso e para decidir o que levar ou não levar de casa, reparei nos pontos de abastecimento. Recordo que a partir dos 30 ou 35kms deveria haver abastecimentos de água de 2,5 em 2,5 kms. Não houve. Houve sim de 5 em 5. E até fez alguma falta. Depois, custou-me ver tanta água desperdiçada ao longo da estrada e custou-me ver tanta garrafa de bebida energética desperdiçada. Penso que alguma coisa deveria ser feito no sentido de racionalizar a água, porque é muito desperdício. Nós apenas bebemos um golo, um golo ou dois, vá lá, e deveria ser encontrada uma solução diferente para isto. Quanto à bebida energética, que penso entrou em substituição das laranjas previstas, teria preferido as laranjas, honestamente; contra o desperdício e pela economia de meios. Acho que um kilo de laranjas seria mais rentável que uma garrafa de bebida meio energética, meio isotónica. E afinal não houve marmelada. Ainda bem que levei uma! barra energética, tipo marmelada, e que me deu imenso jeitaço, acreditem. Tal e qual como nos treinos longos.
E já que me refiro à alimentação, as coisas para mim correram na perfeição (não houve ataques dos corpos cetónicos, nem de outros alienígenas) apesar de...já escrevi. Tudo o resto esteve impecável.

Conclusão
Este terá sido o maior empeno da minha vida desportiva recente. Rivaliza com aquele que apanhei no ano passado em Viana do Castelo, na maratona btt. Na altura foram 6! horas a dar-lhe, e no próprio dia estava assim, que nem podia; no outro já me encontrava na linha de partida para o supersprint da Póvoa de Varzim. Amanhã não há triatlo e eu digo, nem que chovessem notas de 500 €. Isto não está fácil, não senhor. Sei que amanhã terei de trabalhar, mas ainda não sei como. Se penso fazer outra? Hoje não me façam essa pergunta, dia errado. 
Mas, caramba, concluí a minha primeira maratona e em representação do CLUVE.
Agora vou entrar de "férias". Quero fazer outras coisas, até ao final do mês. Gostava de remar um pouco, caminhar outro tanto, fazer uma surfada na hora usual da piscina, mas depende da temperatura da água. E claro, fazer uns passeios de btt, na boa. Aliás, vou inscrever-me em algumas iniciativas do género para...pura diversão! Alguém quer vir?
Um destes dias, faço o balanço da minha época.

Um abraço sentido a todos e até breve.



Nota (3): 
1- Pedro Gomes conseguiu entrar no quadro, pouco acessível e muito restritivo, dos melhores triatletas do mundo, ao conseguir o 2º L na prova Ironman da Flórida ( e não 70.3 como tinha referido) e obter o melhor resultado nacional de sempre na distância. Um caso distinto de orgulho Nacional. 
2- As fotos não ficaram grande coisa, companheiros. As minhas desculpas. 
3- Luís Abade, se me leres, envia-me um email para tratar dum assunto contigo. Abraço, companheiro.

11 comentários:

Pedro Brandão disse...

Grande João!!! És um campeão. És sem duvida um referência para mim porque devemos sempre apreender e motivarmo-nos com os melhores. Tu estas em grande forma. Acredita que fiquei surprendido com esse teu tempo. Muito bom mesmo para a primeira maratona. Tem sido um previlégio compartilhar contigo estes momentos de provas e treinos e espero sinceramente que tenhamos muitas oportunidades de treinar e participar em provas juntos e podermos evoluir os dois no desporto que tanto amamos que é o triatlo.
Um grande bem haja para ti amigo João.

sica disse...

Moço, para quem à uns meses se debatia com lesões e andou à beira do desespero, acho que não podia haver melhor forma de terminar a época, parabéns pelo resultado e fui solidário contigo no empeno.
Em relação ao Krepe corrige lá isso o homem foi segundo na distância mitica,já passou à fase dos homens de barba rija e começa a dar cartas, enche-me de orgulho como Português e pode ser que nos dê uma grande surpresa em Kona no próximo ano.

Jorge disse...

João, PARABÉNS!!!!
A malta aqui em Coimbra esteve atenta e a pedir a todos os santinhos que... chegasses ao fim! Pois claro! Agora, recuperar porque o nº 42 deixa mossas. Gostávamos de te ver cá em Coimbra no dia 19, no jantar que vai fechar as comemorações do 20º aniversário do CluVe. Um grande abraço! jorge loureiro - Clube de Veteranos de Atletismo de Coimbra

Mark Velhote disse...

Viva João,

Antes de mais muito prazer em conhecer-te pessoalmente! Retribuo as tuas simpatícas palavras!

Parabéns pela conclusão da primeira maratona que é sempre um feito assinalável e ainda por cima considerando a lesão que te apoquenta para não falar do facto de só há pouco tempo teres voltado a pegar nas sapatilhas!Parabéns!

Depois este excelente relato que nos dás a ler. Sem dúvida dá gosto acomapanhar-te na prova através das tuas palavras.

Um grande abraço
Mark

Ps: Se possível, depois envia-me aquela foto que tiramos antes da partida.

Ps2:Aí um domingo de sol ver se combinamos o dito treino de bike.

david caldeirao disse...

para além de estares com um andar "novo" a sensação de terminar BEM é indescritivel... muito bom!!!
agora só falta juntares 3.8km a nadar, mais 180km de bike....e já está ;-) (bem talvez seja melhor não pensares nisso agora)!!!
forte abraço,

Anónimo disse...

Parabéns meu amigo.
Paulo Pitarma.

Triatleta disse...

Parabéns João!

Nota: o Pedro Gomes fez 2º no Ironman Florida, e não 70.3.

Abraço,

PP

Maria João disse...

João

Faço hoje a minha estreia na caixa de comentários deste teu espaço que, como tão bem sabes, acompanho desde o primeiro post. Não sendo muito regular na leitura, vou lendo aqui, tantas vezes até, fora de tempo, o que vais deliciosamente escrevendo, sobre esta empreitada que decidiste levar por diante, nesta fase da tua vida.
Acompanho e partilho contigo, in loco, a tua preocupação, o esforço e empenho com que te determinas para alcançar os teus objectivos e deixo-me contagiar na emoção própria das decepções ( que sempre existem), mas e principalmente na alegria dos sucessos, etapas findas de uma luta imensa.
É sobre essa luta que hoje me ocorre escrever aqui. A luta entre a mente, que na sua força determinante, tem de gerir todas as adversidades e os apelos de um corpo exausto, para o levar, teimosamente, a prosseguir até à meta.
É nessa alma forte e poderosa que penso sempre, quando observo o esgar de esforço e dor de todos os atletas. É emocionante sentir que há provas, como esta maratona, em que não importa o lugar, mas a meta atingida e, sabes... é um enorme orgulho para mim, sentir o teu enorme entusiasmo em cada preparação e em cada partida e aplaudir de coração cheio, cada uma das tuas chegadas à meta.

Aplaudo-te de pé!

Aplaudo todos os teus companheiros !

Parabéns!!

Quarenta e dois km de corrida, só podem ser um enorme e poderoso exemplo de força e determinação, para qualquer outra “ maratona” que tenhamos de enfrentar como provação dos nossos limites.

Um enorme beijinho

Paulo Renato Santos disse...

O prazer de cortar a meta nesta mítica distância supera quaisquer dores. Hoje com certeza estás um bocado empenado, mas de certeza que novas metas já te passaram pela cabeça. Força!

Anónimo disse...

Grande João, parabéns por mais um objectivo conseguido. és um exemplo de determinação, empenho e expirito de sacrificio.

Um grande abraço
Zé Botelho

PS: gostei de ver o post da "joão". Por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher

Rui Pena disse...

Olá João,

Está aqui um belo relato, com momentos que mostras muito do que se passa numa prova destas...

Vamos recuperar... Olha que também és uma referência para mim. Vamos lá ver como nos portamos nos próximos "encontros".

Grande abraço,

Rui

PS: Tens amigos e uma companheira altamente.