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25 de Abril, de 1974

25/04/10





O tempo estava farrusco e a escola tinha-nos dado uma folga. O bairro comentava sem saber muito bem o que se passava de facto, dadas as escassas notícias que chegavam. A especulação era muita, mas não se afastava demasiado da realidade: a longa ditadura fascista tinha vergado perante a força dos factos e da vontade das gentes. Na verdade, o poder caiu de podre. E caiu porque havia a guerra no ultramar, que alastrava na alma lusitana como doença fatal; caiu porque o estado castrava as ideias novas, a rebeldia, a vontade de dizer não, a vontade de se ser diferente; caiu porque só alguns tinham direito a molhar a côdea na gorda panela; caiu porque houve um punhado de jovens e irreverentes militares que decidiram pôr-lhe um ponto final, sem pedir autorização a ninguém.

Volvidos trinta e seis anos, clama-se por outro 25 de Abril. A corrupção de outrora aprendeu novas e sagazes formas de se renovar. O poder continua a alimentar aqueles que lhe fazem vénias, a troco de jeitos e outros trejeitos. Hoje por hoje, olhamos para o futuro com um sorriso acanhado, receando pelos nossos descendentes, trazidos à luz da vida na esperança de uma outra melhor que a nossa. A democracia transformou-se num instrumento do prolongamento dos interesses corporativos dos que, instalados no poder, não conseguem abdicar dele e dos prazeres que ele proporciona. O uso desse instrumento evoluiu. Hoje é difícil perceber-se, ou melhor, provar-se de forma inequívoca o lado certo da razão. Joga-se com a informação e a contra-informação, como outrora se baralhavam as cartas numa qualquer mesa, numa qualquer taverna. É vulgar vermos o espectáculo circense romano reposto na nossa actualidade, especialmente na televisão, mas não só. Vivemos a era do marketing, onde as imagens se impõem ao poder das palavras e das ideias e dos projectos. Discutem-se ninharias, transformando-as nos falsos problemas de um País que continua, talvez mais que no passado, com a cabeça na guilhotina das finanças. E os reais problemas sempre adiados, porque continuamos década após década com os mesmos fardos às costas. Os exemplos de falta de ética política ou profissional, de favorecimentos pessoais na esfera da actividade pública ou privada, nalguns casos recuperando as tradições da oligarquia clássica, as ofensas para o comum dos trabalhadores com os números  conhecidos dos salários de gestores e administradores e outras tantas "dores", revelam a flagrante falta de solidariedade existente na nossa amada Pátria, que muitos, com verdadeira coragem, são obrigados a deixar na prateleira ( a Pátria, a família, os amigos ... as raízes) em busca de uma vida melhor lá fora e por tempo indeterminado, porque o nosso País continua adiado. 

Eu digo: urge reinventar o 25 de Abril.

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