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Overtraining - Part I

06/04/10





Num dos dias de recomeço da época, em Dezembro, treinei com um companheiro betetista, muito embora fizéssemos estrada no momento, e a páginas tantas ele contava-me que no final da época passada já nem podia ver a bicicleta à frente, tal o volume/intensidade dedicado à mesma. Também é com relativa frequência que ouço relatos de treinos bem puxadinhos, conseguidos dia após dia, como se de um acto heróico se tratasse, tal a forma vangloriada como são referidos. Estava lançado o mote para um dos artigos deste blogue, que na altura ainda embrionava. 
Não constituirá grande problema se obedecerem a um plano de treino (microciclo e/ou mesociclo de treino) conscientemente organizado e orientado para o propósito de atingir um nível de performance específico, num dado momento da época desportiva. Preocupa-me, e por conseguinte leva-me a abordar esta problemática, é que não me parece que obedeça a um plano de treino organizado ou sequer a um plano de treino, mas tão só de fazer a suposta vontade à vontade de treinar duro porque quanto mais duro melhor. Há um problema grave que resultará inevitavelmente, se se persistir num esquema deste tipo, e esse resultado tem um nome: overtraining ou sobretreino. É verdade que outros problemas poderão surgir, nomeadamente as lesões, mas é sobre overtraining que pretendo tratar.
A carga de treino (o acto de treinar) é conhecida como estímulo para o organismo. Estes estímulos têm uma intenção: provocar desequilíbrios na homeostase, isto é, provocar alterações no equilíbrio dinâmico orgânico, para que o seu reequilíbrio se faça a níveis superiores. Daí que os estímulos, isto é, a carga de treino deva situar-se, a maioria das vezes, algo aquém das possibilidades momentâneas do indivíduo que treina. Quem  dos que me estão a ler neste momento e treinam, não sentiu que num determinado(s) dia(s) o corpo (força e vontade) respondia de forma extraordinária? Pois é, trata-se de um momento de exaltação em resposta a  um processo de adaptação do organismo aos estímulos a que foi sujeito e chama-se supercompensação. Porém, se os estímulos fortes persistirem de forma descontrolada, sem darem lugar ao reequilíbrio homestático, o risco da acumulação de fadiga é elevado, podendo levar à fadiga crónica. No processo de treino, o organismo tende a reequilibrar-se. Faz parte da nossa natureza; fisiológica, biológica e psicológica. É um mecanismo defensivo, igualmente. Daí a importância no doseamento de estímulos fortes e estímulos menos fortes ou mesmo fracos, isto é, treinos com carga elevada, com treinos com carga média ou treinos de recuperação, para possibilitar ao organismo a sua adaptação, de forma gradual e progressiva, a novos níveis de resposta fisiológica e psicológica, preservando as funções vitais que garantem o nosso bem estar, nomeadamente as funções cardíaca e respiratória, mas também as funções que nos permitem pensar, tomar decisões e relacionar com os outros de modo equilibrado e natural. É importante que na mesma semana de treino (microciclo), a carga seja orientada entre estímulos muito fortes, médio/fortes e fracos; também é igualmente importante que a carga de treino mensal (mesociclo) preveja um ou dois microciclos de recuperação, claramente baseados em estímulos menos fortes. Isto é especialmente importante para os atletas veteranos, que, como eu, procuram  conciliar o prazer de competir com a melhoria do nível competitivo. Quero com isto dizer que a fadiga levada ao extremo ou a sua acumulação sem o necessário processo intercalar de recuperação, pode retirar-nos a vontade própria, retirar-nos o apetite, por exemplo; retirar-nos o discernimento para a tomada de decisões e retirar-nos a capacidade de socializar, podendo mesmo levar ao abandono da actividade. Por isso, é muito importante dar a devida atenção ao fenómeno do overtraining, também ele um processo de defesa do próprio organismo na tentativa da procura do equilíbrio homestático, como já foi referido. Porém, não se pense que o overtraining ou sobretreino se deve unicamente a erros processuais de treino. Conjugado com aqueles, há o modo de vida, o meio ambiente, os problemas de saúde, os problemas afectivos. Mas isso, vai ficar para outro momento, bem como outros aspectos relacionados com esta problemática.

A razão da apresentação do vídeo da declaração da nossa grande Vanessa Fernandes, que encontrei por acaso no sítio da RTP, um destes dias, não pretende concluir nada relativamente ao que a Medalha de Prata em Pequim afirma. Tenho para mim próprio uma opinião, que não irei divulgar, por razões éticas, por respeito e dignidade, e porque essa opinião carece do contexto próprio que obrigatoriamente deve ser tido em conta na análise da situação. E também, porque "quem sou eu?" No entanto, e ouvindo o que a Vanessa Fernandes diz, bem que se poderia tratar de um caso de overtraining, assim, descontextualizado.

Nota final (para fazer comichão num qualquer cotovelo): hoje (2ªfeira, 5.04) fiz o meu trabalho de casa para evitar cair na teia do sobretreino, e então, fui nadar em águas abertas, na praia de Comporta, mais precisamente. Ali para os lados de Troia, não sei se estão a ver...;))

Bons treinos!!


1 comentário:

Rafael disse...

Mais uma vez um EXCELENTE artigo!! É sempre bom (re)lembrar-nos que por vezes quando pensamos que estamos a fazer grandes treinos e a conseguir grandes performences, sentimo-nos traidos quando vamos para uma prova e vemos que depois de tanto esforço, não vemos resultados!!! (falo por experiencia própria!!)

Apredendi, que mais que os treinos, é fundamental respeitar os tempos de repouso, e acima de tudo, planificar muito bem os treinos . Depois de um treino de carga, é bom realizar um de baixa intensidade (não sei se estou a dizer asneiras, mas foi assim que me ensinaram...) e cumprir periodos de repouso.

Um aparte... Amanhã (10 de Abril)vou fazer a Maratona de Ponte de Lima... E pelo que parece, vai estar uma "tosta"!! Talvez ainda dê um mergulho no Rio Lima!! ehehehhe

Abraço