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Treinar? Sempre, mas...Lazer em Competição ou Competição Pura?

12/06/10



   
Encontro-me em Tábua, onde regularmente venho, agora um pouco menos, realizar treinos de roçadora, moto-enxada e com outros artefactos agrícolas, entre os treinos ditos normais( Pergunta: também contam, esses treinos??).
É muito gratificante percorrer as estradas circundantes da Vila, sede de Concelho, porque é um desafio às minhas capacidades. Longe dos planos da orla costeira de Esposende, que também tem declives acentuados, se os quisermos percorrer, Tábua e as suas estradas (já nem falo nos trilhos de BTT porque esses infelizmente não conheço ou conheço mal, muito mal) não tem opções: sobe-se e desce-se, sobe-se e desce-se. Aliás, a saída da Vila é sempre a "abrir", não pela velocidade da cadência, mas pela inclinação da estrada, vire-me para onde me virar, com a pulsação a entrar em ritmo acelerado, o que não é bom. Mas, é seguramente um lugar para estágio fantástico. Os treinos de natação também podem ser organizados entre a barragem da Aguieira e a piscina municipal, fraquinha mas desenrasca. Aliás, Tábua daria um triatlo muito interessante, com natação na Srª da Ribeira, um dos braços da citada barragem, e um curso de ciclismo até Tábua que seria terrífico na fase inicial, porque tem uma subida, não demasiado longa, mas suficientemente inclinada para fazer saltar os olhos e soltar a língua até...ao boião da água. Mas, faz-se e se digo que se faz é porque já efectuei alguns treinos com transições e ainda cá ando. A corrida também é possível, porque é possível em qualquer lugar, assim os "gémeos uni-vitelinos" não me moam a paciência. Aliás, Tábua é uma das localidades que escolho para realizar uma das minhas corridas S.Silvestre para preparação da minha época: têm sido 10kms puxadinhos, também com subidas e descidas. A outra é a S.Silvestre de Coimbra, sempre em representação do CLUVE, da mesma bonita e encantadora cidade, por quem tenho enorme apreço pela forma genuína como estão no desporto. E é este assunto que me traz aqui para convosco partilhar algumas dúvidas que se cruzam na minha mente e acredito também na vossa, enquanto percorro os montes e vales entre Góis e Arganil, ou entre Côja e Avô, ou ainda entre Góis e quase, quase Pedrógão Grande (um dia destes faço "uma directa" Tábua/Pedrógão/Tábua).
Vamos ao assunto!
Dou por mim várias vezes a questionar-me das razões que justificam tanta corrida atrás duma oxidação constante, que nos traz benefícios para a saúde no mínimo dúbios. A questão é esta, sendo que o axioma (pratica desportiva? claro que sim! Inequívoco) que a precede está de pedra e cal no silogismo que vos proponho: será que aquela prática desportiva deve perseguir objectivos competitivos tais, que nos levem aos limites das nossas capacidades fisiológicas, psicológicas e físicas, por um lado, e a arriscar comportamentos sociais isolados ou familiarmente pouco conciliáveis, por um lado, ou familiarmente egoístas, pelo outro? Ou antes, projectar no nosso horizonte a satisfação daquela necessidade de uma forma mais prazenteira, económica em termos de gastos de tempo que lhe são dedicados, e usufruir da mesma sem os riscos decorrentes do exagero? A questão é demasiado complexa, porque aborda uma temática que não se encerra na mera conjectura pessoal, antes carece de um estudo que seria muito interessante em várias áreas do conhecimento, logo à partida na área da sociologia dos comportamentos sociais, da qual para mim resultaria uma questão imediata: o que leva milhares de pessoas, nos mais variados desportos, a desejarem alcançar ou testar os seus limites. Numa via; e a despender tanto dinheiro para a satisfação desse hobbie, noutra via. 
No treino que realizei na agradável companhia do Pedro Brandão, e que aqui dei conta na altura oportuna, a páginas tantas disse-lhe que o dinheiro que já gastei na minha preparação para a modalidade, tanto a nível material, como físico, e até ao nível da recuperação na mesma área, daria sobejamente para usufruir de vários fins de semana no Norte de Portugal, ou noutro azimute qualquer, ou na Galiza, dada a proximidade e beleza da mesma. E sem desleixo ou descuro da realização do objectivo prioritário; desenvolver a prática desportiva enquanto hábito saudável de vida. E aquela afirmação deixou-me a pensar nos objectivos prioritários na nossa vida. Factos que importa esclarecer desde já: o nosso hobbie é caro. Não é qualquer um que pode pôr de parte, do seu orçamento mensal, uma verba para, e já não vou referir mais nada, mas que se afigura impossível o nada, deslocações; o nosso hobbie é egoísta. Do ponto de vista familiar obriga a que toda a família ou venha connosco ou fique em casa aos fins de semana, já sem referir as longas horas de ciclismo que temos de realizar, longe da família, longe de outros prazeres que a vida também esconde. Por outro lado, obriga a um planeamento das férias de acordo com as nossas necessidades. Eu vejo-me sempre a pensar, quando se decide o que fazer nas férias, se há "água", que troços de estrada, que vias para correr. O nosso hobbie obriga-nos a um esforço suplementar na gestão e organização da nossa vida. Que tem um aspecto muito atraente, que será isso mesmo, aprendermos a gerir  melhor a nossa vida e os seus timings. Mas, retira-nos algum do prazer subjacente à vida social e que também importa considerar pela forma como também nos enriquece: cinema, teatro, espectáculos, leitura, convívio/partilha com os amigos, etc. 
Alguém escrevia, e recordo-me quem foi mas não vou referir nomes, não é relevante para o caso, que com menos esforço dava para realizar uns sprints e que já dava para alimentar a alma. Mas, caramba, o Desafio é mesmo o inalcançável, o que outros já fazem há muito e que também gostaríamos de fazer ou tentar fazer. E mais tarde ou mais cedo conseguimos, ficamos realizados. E os outros? Os que partilham o dia-a-dia connosco sentirão o sabor dessa vitória? Sentirão o prazer do mesmo modo que nós? Ou estarão conformados a rotinas que sem se darem conta lhes fomos impondo, ou foram aceitando conformados? ou eventualmente a troco da coesão familiar? 
Como dizia atrás, a vida tem múltiplos e diversos aspectos que a justificam. Gostar de viver passa, para mim, por procurar satisfazer esse equilíbrio, manter esse balanço entre o dever e o prazer, porque há momentos  em que os dois são inconciliáveis.
Continuo empenhado em alcançar o meu objectivo no triatlo, embora não dependa apenas de mim. Esse objectivo faz-me falta, sinto dificuldade em abrir mão dele, porque entrou na minha vida quase como uma necessidade de sobrevivência. Quase. Porém, pretendo que esteja em equilíbrio com todos os outros aspectos que me rodeiam, sendo que alguns na realidade são de facto a essência da minha felicidade enquanto Pessoa. Precisamente porque evito deixar-me alienar, recusei estar ligado a uma actividade que neste momento concentra e aliena muitos milhões em todo o mundo e que a mim, em muitas formas da sua expressão, me enoja nos tempos correntes.

Bom fim de semana e ... cuidados para amanhã na partida!


Nota: Há pouco tempo critiquei a nossa Federação por efectuar alterações ao calendário competitivo inicial de provas sem o devido anúncio. Hoje verifico que foram devidamente anunciadas alterações ao  citado calendário, facto que merece a minha referência, pela justiça que lhe é devida. Aqui fica a nota.

1 comentário:

Pedro Brandao disse...

Oi amigo João. levantas aqui de uma forma muito objectiva e bem escrita uma das principais problematicas do desporto amador. Este é um tema que já aflorei várias vezes no meu blog e que fico contente por ver que há quem se preocupe também com ele. De facto é dificil respoder a essas questões que levantas pois trata-se de uma problemática complexa e que não tem resposta simples e imediata. No entanto posso deixar aqui uns pontos (que tenho como orientadores) para reflexão para podermos continuar este "forum" mais tarde, pois neste momento o dever do trabalho chama :):
1 - O ser Humano é competitivo por natureza.
2 - Todos nós devemos ter um bocadinho só nosso onde guardamos as nossas ambições e os nossos prazeres e desejos para poder lutar por eles. Temos que manter uma parta do nosso espirito reservado para nós próprios.
3 - A Familia e o Trabalho são prioridades relativamente ao Desporto.
4 - Faço muitos sacrificios pelo Desporto em detrimnento da Familia e do Trabalho.
5 - O prazer de completar um treino e / ou uma prova só pode ser sentido por que o faz e nunca por quem o ve fazer.
6 - A satisfação de completar um objectivo desportivo nunca será compreendida por ninguem a não ser pelo atleta.
7 - Os que nos rodeiam e que decidiram estar conosco também tem direito á nossa companhia.

Estes pontos são contraditorios... por isso que é tudo tão complicado.