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Reflexão II (a propósito do Ford Ironman World Championship).

10/10/10



Confesso, estou impressionado! Assisti à transmissão em tempo real da prova, como muitos de vós, certamente, e o primeiro facto que me chamou à atenção foi a qualidade da transmissão. Espectáculo! Ainda para mais, a possibilidade de activar o "full screen" permitiu assistir em género televisão. Provavelmente estão abismados com a minha "abismação", mas perdoem-me, foi a minha primeira vez e...não será a última, Deus queira. Bom, no ano passado assisti à transmissão online da prova de Quarteira, para o Campeonato da Europa e foi...sofrível. Má qualidade de transmissão, má cobertura, muitas falhas...valeu o chat para ir trocando uns bitaites, como se diz no Norte. 
O segundo facto, foi a qualidade da edição da transmissão; entrevistas, muitas com gente VIP, imagens dos mais variados ângulos do labor dos atletas, comentários, a publicidade também, que permitia idas a outros locais da casa e fazer outras coisitas ao mesmo tempo, a boa disposição de todos os intervenientes e a respectiva excitação pelas incidências da prova e pelas expectativas que se iam criando, conseguindo captar a atenção do espectador por uma transmissão que durou no mínimo do interesse OITO! horas. Enfim, uma transmissão de alto nível. E depois, houve pormenores deliciosos, como aquele que referia a temperatura do asfalto na ordem dos 42ºC mas que em cima da linha branca pintada na estrada se circulava a menos 12ºC.
O terceiro facto foi constatar que me estava a divertir imenso, mais ainda do que naquele período em que o futebol era vivido de forma apaixonada. Dei comigo a pensar que esta é mesmo a Modalidade! Que emoção. Apeteceu-me ir lá para dentro, especialmente quando observava alguns companheiros com algum perímetro abdominal e me davam a ilusão que "Yes, You Can". Mas, não! É muita fruta junta. Nunca se sabe, mas não está nos meus horizontes, definitivamente. Mas, que dá vontade de percorrer aquelas águas e estradas, lá isso...
O quarto facto foi verificar a popularidade da modalidade e logo na sua extensão maior quando sequencial (penso que não estarei a errar). Uma imagem ficou-me na retina: num dos pórticos da prova, acho que nas imediações da meta, a frequência da passagem das pessoas era tão elevada que pareciam formigas ligadas num carreiro contínuo e ininterrupto. Incrivel! Depois, nem a imensidão de horas de competição desmobilizava as pessoas. Isto é interesse genuíno. O outro indicador da popularidade constatada foi a enorme, massiva, participação no evento. Muito tempo após (horas) a passagem dos primeiros, masculinos e femininos, na última transição havia imensa gente na aproximação à mesma. Hoje pela manhã, após me levantar para a meia da sportzone, verifiquei que havia imensa festa no local da meta com a chegada constante dos participantes Cada chegada era festejada merecidamente de forma entusiástica. Achei fascinante.
O quinto facto tem a ver com a humanidade do pessoal do staff da prova para com os participantes. O exemplo foi dado pela chegada do último concorrente à primeira transição, uma respeitosa senhora, a avaliar pela idade. Ela estava de rastos, abanava que não com a cabeça e o pessoal do staff foi de uma doçura inexcedível. Como tem de ser nestas ocasiões. Os aplausos rivalizavam com a chegada do primeiro ao segmento. Tudo poderá  fazer parte de uma estratégia do marketing para a promoção do evento, o que não acredito, mas é sentido pelo atleta e isso é definitivo para quem está lá e para quem assiste, como eu.
O sexto facto é a focagem dos melhores no objectivo ganhar. Impressionante, quer as prestações, quer os cuidados com a alimentação/hidratação. O ritmo esse foi ininterrupto. E as diferentes alternâncias na liderança ou na aproximação da mesma? E aí, meus amigos, tiro o chapéu a todos, mas especialmente a Chris McCormack que fez uma prova de enorme qualidade. A sua ascensão ao primeiro lugar é quase épica. E a diferença entre os três primeiros faz-me arriscar dizer que um dia destes temos uma chegada ao sprint num evento com uma duração de mais de 7 horas. É qualquer coisa.
O sétimo facto é tristemente constatar que neste cantinho perdido à beira-mar, onde alguns se assenhoram dos destinos da maioria de nós e dos nossos filhos, conduzindo-nos para um abismo (se não fizermos nada entretanto...) e hipotecando o nosso futuro (com que autoridade, pergunto?) a divulgação de um evento extraordinário como este passa completamente ao la...não, não passa, simplesmente não passa. Porquê? Sim, porque é que um feito incrível, quase sobre-humano, para o qual quem queira perfazê-lo terá de cumprir um plano de trabalho minucioso e muito bem estruturado, empenhar muito das suas forças motivacionais e ainda a aquiescência da própria família na prossecução desse objectivo, onde a dedicação e determinação é a metodologia certa, quase sempre custeados pelos próprios, ou minguados junto dos mecenas que apesar de protegidos pelas vantagens fiscais da lei, teimam em encolher os ombros; terá ainda de apelar a um estilo de vida onde não lhe restará quase tempo para a sociabilidade, para o entretenimento, com consequências na privação do seu enriquecimento cultural... Enquanto noutras supostas realizações somos bombardeados com os "feitos" de muitos ídolos que decidem numa noite ser cowboys numa discoteca rasca qualquer ou são apanhados na teia dos lençóis que eles próprios tecem com  prostitutas recompensadas a peso de ouro, e que não têm culpa, pois fazem pela vida, a sua, da maneira que melhor sabem; ou que passeiam os seus ferraris para que os mais novos sonhem o impossível a que só alguns, uma ínfima parte, têm acesso, mesmo quando as suas prestações só nos alegraram com um  meio título-vice-campeão da Europa! Grande feito.

Hoje, enquanto assistia ao evento RipCurl Supertubos, em Peniche, deparei-me com a elevada adesão do público, mesmo num dia fraco para o efeito: chuva, vento, fresco. E senti que este entusiasmo ainda não foi devidamente reflectido por quem de direito na promoção desportiva. Há imensa riqueza na genuinidade das gentes que se deslocam livremente para assistir ao vivo a eventos do género e desejam estar o mais próximo possível das estrelas, olhando-os a todos com a admiração e o respeito, arduamente conquistados. O surf é um exemplo. Depois, vem-me à lembradura a Espanha. Sim, a nossa "vizinha", que aqui à alguns anos não era "nada", até conseguiamos rivalizar com ela. Mas, depois das Olimpíadas de Barcelona tudo mudou e hoje é raro não haver notícia desportiva onde não apareça um "vizinho", modo single ou team, que não tenha ganho qualquer coisa, até no berlinde. Não tenho ciúmes, lamento apenas que tendo quase tantos habitantes como uma Holanda, menos que uma Suécia ou Suiça, só para marcar a questão, estejamos a anos-luz daqueles e vários outros, também numa área onde há tanta propensão, tanta disposição para, tanto talento...
Por isso, continuo abismado por não se dar a devida atenção aqueles portugueses que semana a semana, seja cá dentro ou lá fora, conquistam provas de elevada qualidade ou conseguem registos dignos do nosso orgulho, assim como lamento que a outros não lhes seja dada a possibilidade sequer de tentarem.
Para os que andam distraídos com as tricas e mexericos e maldicência em orbita contínua de um rectângulo de jogo, contribuindo paulatinamente para o fim do interesse público, chegando até a pôr em causa alguma da unidade Nacional, chegando a promovê-la, porque tomam partido em troca de umas carícias pintadas ao jeito da cor, a sua, digo: 
Vejam Lá Se Acordam!

Um abraço, companheiros.

2 comentários:

Pedro Brandao disse...

Sem mais nada a dizer. Concordo com tudo amigo

david caldeirao disse...

o IM é mesmo um espectáculo à parte...que atinge o seu esplendor na lava de Kailua-Kona!!!
é realmente impressionante de ver, como este desporto se assemelha tanto à vida de todos nós...
e quem dise que não é possivel fazeres um IM??? tudo é possivel, basta aceditar ;-)
forte abraço,