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Caminho Francês de Santiago: Dia VII!

30/07/11



O dia começou bastante cedo. Este albergue tinha uma ligeira diferença dos outros; mais rigor no cumprimento dos horários, que por sua vez eram mais rígidos. Isso quer dizer apenas que "os trabalhos" se iniciavam logo às 6 da matina e tinhamos de estar todos cá fora, prontos a andar ou a pedalar, o mais tardar às 7 e 30.
E começou bem, este dia, como uma boa ação: um nativo tinha um furo, teria de aguardar pela abertura da tenda de desporto e eu, bom samaritano, dei-lhe uma. Foi bem. Ele desfez-se em agradecimentos. Normal.
No dormitório das biclas, e observando os preparativos, havia qualquer coisa de esqui nas rotinas. Fez-me lembrar isso.
O plano estava traçado: enfrentar o famoso, celebérrimo, fantasma, monstro adamastor chamado de Cebreiro. Era a dificuldade mais falada durante todo o percurso, por estrada ou por trilhos, a pé ou de bicicleta. A cavalo só mesmo para este, claro. Ao todo, encontrava-mos-nos a 200 kms de "casa". Mas o Cebreiro...Vamos a isso!
Estrada fora, junta-se-nos o rapaz de Valência. Toma o pequeno almoço connosco mais à frente. Antes da montanha, o percurso é bonito e passamos por uma localidade a fazer lembrar les petites galapiats. Lembram-se? 
E chegamos ao momento do sacrifício. É duro, sim sr. Nada que não se faça. Se eu fiz...qualquer um o faz. Muito suor se gasta naquela subida, mas é preciso espírito de sacrifício também. Não cheguei a precisar das velocidades mais leves. E subi, subi, subi...quase que tocava no céu. Mas, por estrada. O aviso de alguns betetistas de que teriamos de andar com a bicla à mão em vários pontos, fez-me claramente optar por  pedalar sempre em cadência. Digamos que estava desafiado a enfrentar a subida sem dar parte de fraco. Não dei e na fase final até deu para sorrir, encharcado, claro.
Parei para esperar pelos companheiros num café, quem diria? ali instalado. Que raio de coincidências tem este caminho. No final de cada subida, um café....bocadillos, tortilhas, colas, sumos, água e Nabila. Sim, uma catalã, do Barça, claro, que ali sentada descansava também da subida, ela pelos trilhos, viajando só, desfazendo amarguras de um amor em desatino, procurando por isso libertar o espírito para outras coisas, outras aventuras. Não foi a primeira com quem nos cruzámos que buscava o reencontro com a paz nas emoções dos afetos. Em Zurbira também uma Irlandesa confessava isso, mais à vontade. E chega o Pajó, depois o Zé e depois o Rubén, de Valência. Ficamos por ali um pouco e acabamos por continuar juntos. Quer dizer, eu opto pelos trilhos, eles por qualquer coisa porque a seguir desencontra-mo-nos, de tal maneira que estive bem mais de meia hora à sua espera. Nos entretantos, passo pelo marco que separa Galiza de Léon e Castilla, mas também pelo placard que anuncia o Cebreiro e premeia quem ali passa com uma magnifica paisagem lá bem do alto. Saiem fotos. Mais à frente, tenho e felicidade de esperar pelos companheiros em conversa com um galego experiente de vidas, lá pelas franças. Fala-me de emigrantes portugueses, também espanhois, mas acima de tudo dos que, a salto, procuravam melhor fortuna noutras paragens, mas que um rio lhes tirava a esperança se não soubessem nadar a preceito. Triste destino esse de quem tem de arriscar tudo para fugir da miséria. Tempos idos, mas parece-me que regressam, com outros modos, para nos pôr à prova. O simpático galego oferece-me vinho e telefone e fica o convite para quando ali tornar, então sim, tragar esse vinho com tranquilidade. Como ele merece.
Finalmente juntamo-nos. E seguimos. Eles querem continuar por estrada, eu por trilhos. Juntar-nos-emos mais tarde, em Sarriá. 
Até Triastela uma descida de se lhe tirar o chapéu testa-me a mim e à bicicleta. Terrível. Ao nível das maratonas mais exigentes que tenho feito. Depois, e utrapassada mais esta dificuldade, uma paragem para refoço de energias; mais tortilha (apanhei-lhe o gosto, hoje), mais cola com coca (para fugir à publicidade). Barriguinha composta e a dúvida: a partir daqui tenho duas possibilidades. Francamente, acho que escolhi a mais difícil. Cada empena. A tortilha, que ainda não havia assentado, até dá voltas no seu caminho. Eu fico com os bofes de fora num ápice. Havia que ser peregrino, havia que cumprir a penitência. Dá-lhe! Mas, a paisagem, os trilhos, as descidas, a despeito da dificuldade das subidas, são magnificas. Sinto-me um privilegiado por poder estar aqui.
Chego ao destino ao fim de 99,49 kms e após pedalar durante 6h29'. Ainda a tempo para uma corridinha de 37' com o Pajó, com frações de intensidade. 
Quando chego já os amigos momentos antes haviam tratado da escolha do albergue e aí reencontramo-nos com o Carlos, de Burgos. O Osvaldo tinha procurado chegar-se mais à frente. Acertamos o jantar, convidamos o puto Ruben e passamos um momento relaxante, com boa comida e bem regado. Eu fico meio aturdido com o cansaço, mas ainda tento fazer "amizade" com a net do albergue, que é paga. Não consigo, esta coisa do bluetooth dá-me cabo dos nervos e leva-me os trocos que me restam. Filha da...Como quase bato com a cabeça no teclado, nem passo pela festa que seguia lá num canto, fora, e onde estavam os companheiros, nos shots. Vou-me deitar que mal me consigo em pé. Foi uma noite santa.

Amanhã há mais. Abraços, companheiros.


Nota: Como já sabem, estou em casa. Agora, tudo se torna mais fácil, daí as fotos. Os dois últimos dias foram de loucos e não deu para nada mais que chegar ao destino na hora.


O albergue das biclas, Ponferrada


Enquanto percorria só

Um mimo num dos trilhos em que solitário pedalava

Lá do alto do Cebreiro

Uma homenagem ao Galego

Mais Cebreiro


Marco de províncias

Após a subida

Les Petits...

Outra


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